sábado, 28 de abril de 2012

‘Achei que tocaria a sociedade. Me enganei’, diz Meirelles sobre ‘Xingu’ no Cine PE

Cineasta é o homenageado deste sábado do festival Cine PE.
Nesta entrevista, ele conta sobre novos projetos e relembra os antigos.
Luna Markman Do G1 PE

Fernando Meirelles (Foto: Divulgação)

Neste sábado (28), a Mostra Especial do Cine PE Festival do Audiovisual vai exibir “Xingu”, dirigido por Cao Hamburger e produzido pela O2, de Fernando Meirelles, um dos homenageados do evento - os outros são o cineasta Cacá Diegues e o ator Ney Latorraca. A sessão ocorre às 17h, no Cine Teatro Guararapes, no Centro de Convenções, em Olinda. A entrada é de graça. A homenagem a Meirelles acontece a partir das 20h, durante a programação da Mostra Competitiva.

“Xingu” narra a história dos irmãos Villas Bôas. Na década de 1940, fingindo serem sertanejos, eles abandonaram a vida em São Paulo e tomaram parte em expedições pelo centro do Brasil, colocando-se na linha de frente da chamada “questão indígena”. O ponto alto da trajetória foi a criação, em 1961, do Parque Nacional do Xingu, maior reserva de proteção de índios do país. Segundo Meirelles, a recepção da crítica tem sido sensacional, mas, por alguma razão, o longa não esta indo bem nas bilheterias. “Como estamos ainda sob o impacto da aprovação deste Código Florestal vergonhoso ou do desastre que é [a Usina Hidroelétrica de] Belo Monte, achei que por falar sobre este modelo de desenvolvimento o filme tocaria a sociedade como um todo. Me enganei. Talvez a frase do Jânio para o Orlando Villas Boas, no filme, explique isso. Ele diz: ‘Orlando, brasileiro não gosta de índios’."

"Cidade de Deus"
A escolha de homenagear o cineasta paulista passa pela contribuição dele ao audiovisual brasileiro e pelos dez anos do filme "Cidade de Deus". O longa-metragem começa com galinhas sendo preparadas para o almoço. Uma foge. Bandidos armados a perseguem. A ave para entre os criminosos e o jovem Buscapé, que acredita ser o alvo da gangue. Nesse momento, a história regride dez anos, para explicar como o menino foi parar ali e, sobretudo, mostrar o crescimento do crime organizado na comunidade carioca entre as décadas de 1960 e 1980.

O filme, adaptado por Bráulio Mantovani a partir do livro homônimo escrito por Paulo Lins, foi dirigido por Meirelles. Lançado em 2002, mexeu não só com o país ao expor uma faceta que pairava no imaginário de muita gente como na vida do elenco, formado, em sua maioria, por atores que moravam nas favelas do Vidigal e Cidade de Deus. Um documentário está sendo produzido para contar o que aconteceu com vários deles uma década seguinte àquela experiência tão marcante. “Cidade de Deus – 10 anos”, dirigido por Cavi Borges e Luciano Vidigal, também vai falar um pouco do Brasil neste período.

E qual foi a marca deixada pelo longa-metragem na vida do cineasta? “[“Cidade de Deus”] Foi um divisor de águas na minha carreira de diretor. Há dez anos, eu estava no lugar certo, na hora certa e com as pessoas certas. Foi uma espécie de loteria do destino. Graças a ele, tive acesso ao mercado internacional, onde tenho trabalhado quando faço longas”, disse Meirelles.

O documentário está na fase final das filmagens e corre contra o tempo e verba para ser finalizado ainda este ano. O teaser do trabalho vai ser exibido no Cine PE, neste sábado (28). Além disso, Fernando Meirelles informou que "Cidade de Deus" vai ganhar uma versão em quadrinhos. “Vamos lançar o HQ baseado no filme. Já está pronto na verdade, estamos na fase de autorização do uso de imagens de quem está desenhado ali. São 180 páginas e o plano é lançar na Bienal do Livro em São Paulo, em agosto”, adianta.

Carreira internacional
Foi “Cidade de Deus” que lançou Meirelles no mercado internacional, filmes pelo qual foi indicado ao Oscar de Melhor Diretor em 2004. Depois do feito, dirigiu “O Jardineiro Fiel” (2005), baseado no romance homônimo do inglês John Le Carré e pelo qual foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Diretor; e “Ensaio sobre a Cegueira” (2008), também inspirado na obra homônimo do português José Saramago.

Anthony-Hopkins em '360' (Foto: Divulgação)

A mais recente produção não-lusófona é "360", uma co-produção da sua O2 Filmes com o Reino Unido, França e Áustria, que deve ser lançado no Brasil no dia 17 de agosto, pela Paris Filmes. A história fala de cruzamentos entre vários estratos sociais. O roteiro é de Peter Morgan, que se inspirou na peça Reigen (Ronda), do dramaturgo austríaco Arthur Schnitzler, publicada em 1897. No elenco, nomes como Rachel Weisz, Jude Law, Anthony Hopkins.

A película foi exibida pela primeira vez no Festival de Toronto, em setembro de 2011 e dividiu a opinião da mídia estrangeira. Meirelles ameniza o conflito de opiniões. “[“360”] É um filme leve, sobre relacionamentos. Talvez por eu ter feitos alguns filmes mais dramáticos, este não cumpriu as expectativas de quem não achou bom. Mas tive também algumas críticas bem duras em Cidade de Deus e Ensaio [sobre a Cegueira], então já aprendi a tocar o barco sem deixar isto me paralisar.”

Fora “360”, o cineasta já está envolvido com outra produção estrangeira: "Nemesis", baseado no livro “Nemesis: The True Story of Aristotle Onassis, Jackie O, and the Love Triangle That Brought Down the Kennedys”, de Peter Evans. O roteiro é do Bráulio Mantovani, de “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus”, com fotógrafo, montador e finalização do Brasil.

Meirelles afirma estar muito empolgado com o filme, que trata das relações do grego Onassis com a família do ex-presidente americano, por ter participado do desenvolvimento do roteiro desde o começo, coisa que não fez em "Jardineiro", "Ensaio" e nem em "360". “A história é impressionante e há revelações que vão surpreender. Talvez, depois do filme, eu nunca mais consiga um visto americano”, brincou.

Além de Meirelles, outros poucos cineastas brasileiros têm conseguido trabalhos fora, como Walter Salles ("Diários de Motocicleta") e José Padilha (que está envolvido na remake de "RobCop"). Será que há "um jeitinho brasileiro de fazer cinema”? “Acho que os convites são mais pelo resultado dos trabalhos que fizemos. Não creio que o fato de sermos brasileiros pese nesta equação”, opina Fernando.

Cinema brasileiro
O paulistano, hoje com 56 anos, fez parte da chamada “retomada do cinema brasileiro”. Na época do ex-presidente Fernando Collor, entre 1991 e 1995, o Brasil ficou sem produzir nada. Após esse período nebuloso, alguns trabalhos inflaram novamente a filmografia verde e amarela, como “Central do Brasil” (1998) e “Cidade de Deus”.

Meirelles acredita que a indústria cinematográfica nacional já tomou seu rumo, mas a sua história é tão é tão cheia de altos e baixos, de soluços e espasmos, que é difícil afirmar que agora é para valer. “Mas, de fato, nunca nossa indústria esteve tão sólida por tantos anos seguidos, apesar de ainda haver muito a ser feito. Uma coisa que gosto na produção atual é que ela atira para todos os lados, diferente do período da [Companhia Cinematográfica] Vera Cruz, das Pornochanchadas, do Cinema Novo etc.”, reflete.

Fonte: G1 PE

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