quinta-feira, 29 de março de 2012

Rodrigo Santoro vive Heleno do Botafogo

"Heleno" mostra derrocada de primeiro "bad boy" do futebol brasileiro
Em preto-e-branco, Rodrigo Santoro vive o atacante do Botafogo rumo ao fundo do poço

Se há um mérito em "Heleno", que estreia nesta sexta-feira (30) nos cinemas, é recuperar a história de Heleno de Freitas, o primeiro "bad boy" do futebol nacional, perdida entre as lendas do esporte. Atacante do Botafogo na década de 1940, Heleno era o que Brasil tinha de mais próximo a um astro ou rockstar numa época em que a indústria das celebridades, e do próprio esporte, ainda não havia atingido pleno desenvolvimento.

Com Rodrigo Santoro no papel principal, o diretor José Henrique Fonseca ("O Homem do Ano"; série "Mandrake") capta com segurança, e em preto-e-branco, o auge e a derrocada do jogador, que morreu precocemente num sanatório aos 39 anos.

Foto: Divulgação
Rodrigo Santoro como o jogador Heleno de Freitas: astro no Brasil da década de 1940

Saudado pelos jornais como "homem-gol", Heleno era dono de uma empáfia inabalável e um gênio explosivo. Xingava os companheiros, não aparecia nos treinos, brigava no vestiário e no gramado, mas tinha um belíssimo aproveitamento na área. "Fecha o olho e cruza no Heleno que ele resolve", dizia a máxima, reproduzida por ele. A imprensa ainda alimentava esse ego gigantesco com manchetes sensacionalistas, legitimando um comportamento que há muito havia ultrapassado os limites.

Estrela que era, Heleno morava no hotel Copacabana Palace, onde se entregava a noitadas tórridas com fãs e cantoras de boate – a mais frequente era Diamantina (a belíssima colombiana Angie Cepeda, de "Pantaleão e as Visitadoras"). Muito álcool e cigarros eram ingredientes rotineiros, mas pouco depois o vício em éter entraria com peso na vida desregrada do jogador.

Foto: Divulgação
Alinne Moraes e Rodrigo Santoro em "Heleno"

O sucesso na juventude é intercalado por cenas de Heleno no fim da vida, internado em Barbacena, com problemas mentais e padecendo de um estágio avançado de sífilis. Doze quilos mais magro, debaixo de maquiagem pesada, cabelo ralo e dentadura, a caracterização de Santoro espanta. Aquele homem na clínica é apenas um reflexo embaçado de glórias anteriores, que tenta recuperar sua imagem se alimentando literamente de recortes de jornal colados na parede.

Se havia o perigo de o filme se tornar o relato comum de alguém que sucumbiu à fama, José Henrique Fonseca conseguiu conferir personalidade à história, escrita em conjunto com Felipe Bragança e o argentino Fernando Castets (parceiro de Juan José Campanella em "O Filho da Noiva", "Clube da Lua" e outros filmes), com coadjuvantes competentes. Há a cumplicidade com o irmão (Duda Ribeiro), o triângulo amoroso com o melhor amigo de Heleno, Alberto (Erom Cordeito), e sua mulher, Silvia (Alline Moraes, fotogênica e competente), embora a comoção fique por conta do relacionamento com o enfermeiro Jorge (Mauricio Tizumba).

Até pode-se questionar a validade de não se filmar em cores, mas a fotografia de Walter Carvalho é irretocável. Os enquadramentos fechados colaboram, assim como o desenho de som e a trilha sonora, para a criação de um clima desconfortável, em sintonia com a confusão psicológica do protagonista.

Sonhos e fantasmas

Ao longo da projeção, a antipatia por Heleno não se dissipa. O curioso é não conseguir se tornar imune a seus sonhos (jogar na Seleção Brasileira e no recém inaugurado Maracanã) e fantasmas (uma fatídica final chuvosa contra o Flamengo no campeonato carioca). Além dos méritos da direção, Rodrigo Santoro é responsável por manter o interesse pelo personagem. Se não é um virtuoso, o ator só comprova sua força diante das câmeras, como mostrou recentemente em "Meu País" e lá atrás em "Bicho de Sete Cabeças".

Ele se vira bem inclusive no microfone. Num momento para lá de didático, Heleno dedica uma música a sua família na rádio, cantando o standard "Nature Boy", finalizado com os versos "ele aprendeu que o importante era amar e ser amado". Mais claro impossível.

Fonte: IG

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